3 de julho de 2015

Bolo de suspiros e mousse de chocolate com café para uma miúda espontânea :)

You think you're right, but you were wrong.
You tried to take me, but I knew all along.
You can't take me for a ride,
Well I'm not a fool now, so you better run and hide.
Trouble, yeah trouble now.
I'm trouble, I disturb my town.

Pink




Quando vos contei que tinha optado por mudar um bocadinho o meu estilo de roupa no trabalho, a sábia Ana do blog 'Cozinhar sem Lactose' escreveu num comentário que era crucial fazer o luto da adolescência e abraçar a vida adulta. E foi ao ler aquela frase que eu percebi que, na verdade, algumas das minhas dúvidas existenciais relacionadas com o trabalho prendem-se com o facto de ainda estar no início da minha actividade profissional e, por isso, ser uma espécie de adolescente da psiquiatria da infância e adolescência.


Desde então tenho crescido ao meu ritmo. Lido com as minhas inseguranças. Desenvolvo a minha confiança.

Mas há uma pequena questão que ainda precisa de ser trabalhada: sou demasiado espontânea.


Na vida fora do hospital, não ter qualquer espécie de filtro verbal permitiu-me criar relações estáveis. Fez com que o Pedro se apaixonasse por mim, que a Joana e o Bernardo me achassem piada e que os meus amigos soubessem que digo sempre o que penso. Em última análise, fez com que me sentisse à vontade para partilhar convosco todas estas histórias.

Ser espontânea trouxe-me a este ponto da minha vida.


No entanto, na vida dentro do hospital a espontaneidade é severamente desaconselhada. E isto não é de todo ter a mania da perseguição nem nada que se pareça: os meus colegas de trabalho já me avisaram várias vezes que sou demasiado aberta e espontânea e que isso me vai prejudicar a nível profissional. Dizem que não devia falar da minha vida pessoal, que não devia partilhar as minhas histórias e que não devia ser tão transparente. No fundo, dizem-me que ser como sou me vai trazer muitas chatices.

E eu penso que isto de fazer o luto da adolescência e abraçar a vida adulta é uma grande merda.


Pelo caminho, vou tentando controlar-me no trabalho. Acabaram-se as conversas, acabaram-se as histórias, acabaram-se as parvoíces totós. Adeus Joana espontânea, olá Joana trombuda e calada.

Quando meto o pé fora do hospital, continuo a ter a mesma diarreia mental e verbal do costume. Sou espontânea, sou desastrada, sou irremediavelmente sonhadora e sou loucamente optimista. E por isso decido de repente fazer um bolo de suspiros e mousse de chocolate mal a Joana me lembra do último que fiz, para o aniversário dela.

É por coisas deste género que ser espontânea é a minha qualidade que eu mais gosto. E que nunca deixarei que os outros transformem isso num defeito.


Bolo de suspiros e mousse de chocolate com café

Ingredientes:

Para o bolo:

* Nove claras;
* 36 colheres de sopa de açúcar;
* Três colheres de chá de vinagre;
* Três colheres de chá de amido de milho (farinha maisena);
* Três colheres de chá de cacau em pó magro;

Para a mousse de chocolate com café:

* Cinco ovos;
* 200g de chocolate negro com 70% de cacau;
* Quatro colheres de sopa de manteiga sem sal;
* Um café expresso.

Confecção:

* Bater as claras em castelo, sem ficarem demasiado firmes;

* Adicionar o açúcar aos poucos, continuando a bater;

* Juntar o vinagre, o amido de milho e o cacau e envolver cuidadosamente com uma vara de arames;

* Forrar três tabuleiros de ir ao forno com papel vegetal;

* Com a ajuda de um prato desenhar um círculo em cada papel vegetal e cobrir com a massa, de modo a formar três discos do mesmo tamanho;

* Levar ao forno pré-aquecido a 180º e baixar imediatamente a temperatura para os 150º;

* Deixar cozinhar cerca de trinta minutos;

* Desligar o forno e reservar os discos lá dentro até esfriar completamente (deixo durante a noite);

* Para a mousse, derreter o chocolate com a manteiga no microondas;

* Bater as gemas e juntar lentamente o chocolate derretido;

* Bater as claras em castelo e juntá-las ao preparado anterior, mexendo sempre de cima para baixo bem devagar;

* Juntar o café e envolver bem;

* Levar ao frigorífico durante duas horas;

* Para montar o bolo colocar uma camada de suspiro num prato de servir e sobre este um terço da mousse de chocolate;

* Colocar depois a segunda camada de suspiro, outro terço de mousse e terminar com a última rodela de suspiro e o último terço de mousse;

* Decorar a gosto.




Até amanhã! :D

10 comentários:

  1. É claro que em muitas circunstâncias da vida temos de mudar algumas das nossas características e um pouco da nossa maneira de ser. Importa é que isso não altere a nossa identidade nem a nossa personalidade e que continuemos, mesmo que não o possamos mostrar, a ser genuinamente quem somos. E se espontaneidade te faz fazer bolos maravilhosos como este, então que continues a ser espontaneamente feliz! Beijinhos

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    1. Foi mesmo um acto espontâneo :) E ainda bem, porque me trouxe este bolo delicioso :)

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  2. Eu não comento muito, apesar de gostar muito do teu blogue, mas nisto tenho de me meter e dar também a minha colherada (na tua pavlova também dava).

    Nós temos de ter filtros no trabalho, claro que temos - com fornecedores e clientes (no meu caso, pacientes no teu), porque comunicar com eles é a essência do que é o nosso trabalho, isso é uma evidência. E com os colegas também, até um certo nível e dependendo dos colegas.

    Mas, a não ser que tu queiras fazer carreira política dentro do hospital e que esse tipo de coisas te seja importante (e pode ser, não tem mal nenhum, e nesse caso não te sei aconselhar) podes e deves fazer isso sem perder a autenticidade.

    Não podes ser rude, indelicada ou mal educada (nem te imagino a sê-lo, pelo que leio), mas podes ser divertida, podes fazer piadas, podes contar histórias pessoais e podes ser vulnerável, sim! Pelo menos com algumas pessoas. E isso facilita-te a vida, faz-te mais feliz e até te faz melhor profissional. Sorrisos sinceros, assunções de culpa honestas e cumplicidades autênticas já me trouxeram tantas coisas boas na minha vida profissional, mas tantas….

    Como já está a ficar longo, termino com uma história, que ilustra bem isto que estou a dizer (e a sabedoria da minha mãe!):

    Quando voltei para Portugal há dois anos fui trabalhar para uma empresa nova, na qual viria a ficar 18 meses, mais coisa menos coisa, antes de sair para um emprego mais perto de casa, e que foi o meu primeiro emprego a sério em Portugal. No segundo ou terceiro dias um colega fez-me um aviso semelhante, no skype, depois de perguntar como me estava a dar.

    “Tem cuidado, porque a tua alegria, abertura e espontaneidade não caem bem com toda a gente, aqui não se pode confiar em todos, blablabla”.

    Cheguei a casa e contei à minha mãe que me disse lacónica “olha, então não confies nesse”.

    E ela tinha razão, absolutamente. Eu? Continuei a ser eu todos os dias, sempre “boazinha" mas firme quando necessário, com piadinhas, com histórias pessoais, com a vulnerabilidade necessária e incontornável e sempre sorridente na mesma. Saí com muitos amigos, a dar-me bem com quase toda a gente, com muito boas recordações e com a consciência tranquila em termos profissionais, porque conseguimos fazer muito e bem.

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    1. O problema das histórias pessoais é que trabalho em saúde mental, e há um bocadinho a tendência para os meus colegas analisarem aquilo que estou a contar. Às vezes eu também faço isso - é difícil 'desligar' o radar que tens nas consultas para perceber determinados traços da personalidade de alguém ;) Por isso é que falar da minha vida parece ser desaconselhado, mas acho que é uma questão de encontrar o meu meio termo :)

      Mas gostei muito da história da tua mãe :) Realmente, muitas vezes quem nos avisa não é propriamente tão preocupado connosco como pode parecer ;)

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  3. Olá,

    Devido a ser assim espontânea já tenho tido a minha cota de azares. No mundo de trabalho não dá para se ser espontânea nem sincera mas sinceramente não sei ser de outra forma.
    Adorei o teu bolo e adorava provar um bocadinho (fazer não pois qaundo for ao médico irei levar nas orelhas, de certeza).

    Beijinhos,
    Clarinha

    http://receitasetruquesdaclarinha.blogspot.pt/2015/07/picnic-caracois-de-alheira-ou-de.html

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    1. Pois, eu também não sei ser de outra forma. É uma chatice :)

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  4. Ainda bem que os meus comentários são úteis! :-D

    Abraçar a vida adulta não tem que ser uma grande merda, mas não se faz num dia; acho que é um processo de crescimento e elaboração. Tenho a certeza que vais encontrar uma outra forma de ser espontânea, que seja mais adaptada à vida profissional. Aliás, não concordo nada com os colegas que te dizem que tens que deixar de ser espontânea - no meu ponto de vista, não é uma questão de conteúdo mas de forma. Quando trabalhamos em saúde mental, sobretudo se queremos ter relações profundas com as pessoas, temos que ser verdadeiras e espontâneas - a questão é de que forma!

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    1. Acho que ainda estou a elaborar a parte da forma ;) A questão, segundo os meus colegas, é eu não ter qualquer problema em expôr as minhas fragilidades com a minha directora de serviço. Eles dizem que isso faz com que ela pense mal de mim, mas na verdade eu preciso que alguém me ajude a tornar-me melhor profissional e só consigo isso se lhe explicar quais são ao certo as coisas que gostaria de trabalhar. Sei lá não vejo problema nenhum em dizer que sou muito má a ser assertiva, se isso permitir que ela partilhe comigo algumas dicas! Mas enfim, acho que é uma questão de aprendizagem :)

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  5. Olá! Fiz esse bolinho hoje e ficou muito bom! Não está tão bonito como das fotos, mas é de comer até encher, ehehehh. Obrigada pela receita!

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    1. Ainda bem que gostaste Sandra :D Fico muito contente :D E obrigada pelas fotos! :D

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