22 de novembro de 2015

Pregnancy Diary #8

Não sendo propriamente um tópico típico de um diário de gravidez, hoje gostava de vos falar de algo que me tem aborrecido um bocadinho ultimamente.

Sempre tive amigos com pais médicos. Nunca os achei diferentes por causa disso e os meus pais não me educaram no sentido de tratar os outros de forma especial (sendo ela melhor ou pior) por causa da profissão dos pais. No entanto, era inegável que em alguns contextos esses meus amigos tinham efectivamente um tratamento diferente - nomeadamente, pelos professores ou auxiliares das escolas por onde passei. Nunca liguei muito ao assunto.

Desde que engravidei, apareceram os comentários. Primeiro no centro de saúde e depois no local onde fiz a ecografia do primeiro trimestre, o facto de sermos os dois médicos pareceu saltar à vista no meu boletim de saúde da grávida e deu azo a afirmações como 'muito bem, os dois médicos!'. 

Por fim, aconteceu nas creches. Quando as pessoas perguntavam o que fazíamos (porque isso parece ser importante por uma qualquer razão que eu desconheço) e nós respondíamos que somos médicos quase conseguíamos ouvir as pinguinhas de xixi a cair com o entusiasmo.

E foi então que percebi que o nosso filho vai ser 'o dos paizinhos médicos'.




Quem nos conhece na nossa vida pessoal sabe que nós somos talvez a antítese de aquilo que as pessoas normalmente associam aos 'paizinhos médicos' (correspondendo isso à verdade, ou não).

Eu não tenho malas da Michael Kors e da Bimba Y Lola e tenho orgulho na minha (mini) colecção de All Stars. O Pedro recusa-se a comprar um smartphone e ainda usa um daqueles Nokia velhinhos. Não temos televisão em casa. Não conduzimos Porsches. Se nos assaltassem, a única coisa valiosa para roubar cá de casa seria a minha máquina fotográfica.

Não somos ricos, não somos snobs e não vamos tratar os nossos filhos por você (não que ache que há algum problema com isso, tenho imensos amigos que tratam os pais por você e não são de todo snobs). Não temos dois apelidos nem títulos de família.

Somos pessoas absolutamente normais, que por acaso são médicas. E recuso-me a deixar que o que faço em oito horas do meu dia defina a pessoa que sou para os outros nas restantes dezasseis.


E foi por isso que algumas das creches saíram da lista. Não porque não gostámos delas, não porque o espaço não nos tivesse agradado ou porque as crianças estavam mal tratadas, mas sim porque nos sentimos tratados de forma diferente. E eu recuso-me a compactuar com o sistema que ensinaria ao meu filho que as pessoas têm valores diferentes por causa do que fazem.

Porque, em última análise, as crianças não têm preconceitos: são-lhos ensinados. E, no que depender de mim, o meu filho vai ser tão liberal como nós.

58 comentários:

  1. Bonita partilha, Joana! Fazem falta mais pessoas como tu. Estudo Direito porque sou uma apaixonada por esta área, pelos desafios constantes e pela possibilidade de ajudar a resolver problemas que atormentam muita gente, às vezes de tão simples solução. Mas também há um estigma com advogados e filhos de advogados e também não quero que os meus filhos (quando os tiver! ❤) sintam ponta disso. Quero que sejam livres e que saibam que a profissão dos pais é só isso mesmo, uma profissão entre tantas outras, que escolhemos por vocação, mas que não é nem nunca será "O" elemento definidor de cada um de nós. A mãe será sempre a tonta que pinta a parede (lavável!) do quarto com uma mensagem de amor, todos os dias, essa é a mãe. A mãe do "amigo" não é a florista, a cabeleireira, a arquitecta, a médica ou a emprega doméstica, é a mãe do "amigo" que faz bolachas deliciosas quando lá vamos brincar! É destas mensagens que a nossa sociedade, com um ainda tão longo caminho de evolução pela frente, precisa com urgência. Beijinhos! :)

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    1. Sim, também há 'é o filho do senhor advogado'. Até já ouvi num contexto de consulta 'é que a mãe dela é importante, é secretária numa firma de advogados e tem logo cunhas nos tribunais todos'. Pelo amor de Deus! ;)

      Os meus pais sempre me ensinaram isso. A minha mãe adorava dizer que eu podia escolher a profissão que eu quisesse, mas era obrigada a ser muito boa no que escolhesse porque foi assim que eles me educaram. E acho que vou ensinar isso aos meus filhos, porque de facto é essa a forma correcta de pensar. Já não há empregos para a vida, já não há profissões de sonho, agora só há mesmo a vocação e o gosto (e ainda bem!).

      Mas confesso que uma parte de mim sente-se desconfortável nestas situações, como se eu é que estivesse errada. Como se eu é que devesse estar mais bem vestida, não ter uma caneta com a tampa roída (não consigo acabar com esta mania), achar que as crianças de três anos já deviam estar a aprender a ler, usar aliança (esqueço-me frequentemente e o Pedro nunca usa)... Às vezes sinto que devia ser 'mais adulta', o que quer que isso seja. Mas não sou, por isso não faz sentido tentar moldar-me ao que os outros esperam :)

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  2. Deves ser a única medica que pensa assim. A minha (ex) melhor amiga começou a achar-se a melhor do mundo por ter entrado em médicina e dizia o curso sempre que achava conveniente (nas farmacias, na policia..).. Os pais (tambem medicos) dizem que ela não pode namorar com alguém de outra profissão e apresentam-se como "Sou o Dr X" quando isso não interessa para nada.
    Tu és a única médica que "conheço" que diz que ser médico é uma profissão como as outras. Que não se acha melhor que todos os outros que não seguiram medicina. Nunca conheci nenhum que dissesse isso, nem que não fizeste questão de demonstrar o estatuto (e que o deseja) da sua profissão.
    Por isto tudo sei que és uma pessoa como poucas e que esse miúdo vai ter um mãe excelente, com os valores ideais e no sitio certo. Além disso nota-se que estas nessa profissão pelas pessoas e nada mais. Como todos deviam ser. Que sejas sempre feliz, Joana. Tu, o Pedro e o vosso bebé.

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    1. Eu detesto que me chamem Drª. Nem os meus doentes me chamam Drª! Quando acontece (por exemplo, quando fui fazer a ecografia chamaram-me Drª Joana Macieira pelo intercomunicador) digo sempre que prefiro Joana porque os meus pais não me chamaram doutora :D

      Acho que quando se entra no curso às vezes acontece achar que somos melhores do que os outros. Eu não achei, mas lembro-me de pensar por exemplo que o meu curso era mais difícil do que os outros. É claro que ter amigos em engenharia me ajudou a perder logo essa mania :)

      Acho que conheces os médicos errados :D Não que eu não os conheça, mas a maior parte dos meus amigos é bastante despretensiosa nesse aspecto (e os poucos que não são até têm auto-crítica para isso). Acho que estar neste ramo já é tão difícil, se não o fizermos pelas razões certas então é mesmo impossível :)

      Muito obrigada pelo comentário :)

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  3. Joana, comento para elogiar a tua postura e clareza de visão. Muito bem! Penso que não só os médicos mas quaisquer profissionais/pessoas deveriam ter a mesma atitude, respeitando o outro independentemente de fatores como a profissão, conta bancária, ou outro aspeto qualquer. Por favor tenta manter essa clareza de espírito e de certo o teu filhito (e os que entretanto aparecerem ;p) será um rapaz integro e correto!

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    1. Espero que sim Sofia :) Ainda ontem perguntava ao Pedro como é que íamos conseguir ensinar ao nosso filho a respeitar todas as pessoas e todas opiniões, se havia pessoas com afirmações que a nós nos parecem tão ridículas e desagradáveis (isto a propósito da adopção por casais homossexuais). No fundo acho que se trata um bocadinho da mesma coisa: um dia irei ensinar ao meu filho que as pessoas não se definem por uma profissão, uma casa, uma característica ou até uma opinião em relação a determinado assunto. Só espero conseguir passar a mensagem, porque hoje em dia a nossa sociedade não está fácil :) (embora, agora que penso nisso, antigamente também não estivesse uma maravilha!)

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  4. Gostei muito deste post, Joana. Parece-me que não irás ter problemas em ensinar ao teu filho os vossos valores e princípios. Os filhos são tudo menos tontos e observam a conduta dos pais com toda a atenção, mesmo quando nos parece que não estão a ligar nenhuma. Ele irá certamente aprender a ser uma boa pessoa, com o exemplo dos pais que tem.
    Por outro lado, acho que não deves constranger-te por te chamarem doutora: é aquilo que és e deves ter muito orgulho nisso, da mesma forma que se fosses cabeleireira ou polícia. Não há qualquer mal ou presunção numa denominação profissional que se obteve com trabalho e mérito. Muitas felicidades para ti e para os teus amores. :)

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    1. Obrigada pelo comentário MC, e espero que tenhas razão :) Creio que há imensas coisas que influenciam os miúdos, desde os pais ao ambiente escolar e passando até pelo grupo de amigos, mas se fizer a minha parte acho que já não ficamos muito mal :)

      Não é propriamente um constrangimento. Em relação aos meus doentes, os que são pequenos não me tratam por doutora porque não faz parte das 'normas sociais' deles, e acho que os adolescentes se sentem mais próximos e confortáveis tratando-me apenas por Joana (alguns até me tratam por tu e isso não me incomoda nadinha). Já nos outros locais faz-me confusão porque mais ninguém tem título. Ninguém é chamado (e ainda bem!) como o professor António ou a advogada Cristina, porque é que eu haveria de ser a doutora Joana? Eu tenho orgulho no que faço, mas não preciso que os outros o saibam ;)

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  5. Fico muito feliz com a tua opinião. E concordo plenamente com ela, foi assim que fui ensinada também. Lido diariamente com vários médicos e só uma pequena minoria é como tu. Infelizmente a grande maioria acha-se superior e passa esses (pre)conceitos aos seus próprios filhos e ao resto da sociedade que acaba por se deixar influenciar (de uma forma geral).
    Continua assim! :)

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    1. Tenho pena, a sério. Só me resta dizer que me parece que a nova fornada de médicos é diferente :D

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  6. Teres sentido necessidade de fazer este post, por ser tao verdade, é ridículo! Agora so falta que mais gente pense como tu :P isto das profissoes de 1a e de 2a (e pessoas de 1a e de 2a...) faz.me imensa comichao e solta o pequeno che guevara que ha em mim :P desde que li o testemunho daquele pai que era tatuador, para inscrever a filha na creche e que foi super descriminado e maltratado, da mesmo para pensar k este sistema precisa de ser abanado e bem! Obrigada pela vossa contribuição :)

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    1. Sabes que na altura achei aquilo tão estranho que pensei que ele deveria estar a exagerar (deve ser defeito de psiquiatra, achar que toda a gente está paranóide) :D Mas muito sinceramente agora parece-me bastante possível que aquilo tenha acontecido. Nós próprios fazemos isso nas nossas consultas. Quando um pai ou uma mãe se veste de uma forma diferente (uns mais descapotáveis, outros mais extrovertidos, vai variando), dizemos que têm um comportamento 'desadequado'. Porquê? São inaptos para cuidar dos filhos? São piores pais? Vão traumatizar as criancinhas? Enfim, acho que temos todos um longo caminho a percorrer ;)

      (E sim, tinha uma colega com uma tatuagem que uma vez foi aconselhada a removê-la porque 'isso não é nada compatível com a postura de um médico'. Eram umas flores, mas mesmo que fosse um símbolo satânico acho que toda a gente usa, faz e veste o que lhe apetece - desde que seja bom profissional e não tente converter as pessoas ao satanismo) :D

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  7. Bom dia Joana!
    Gostei muito de ler estas linhas que tanto valor transmite. Lá em casa há um dos filhotes (uma) que está a tirar medicina e que partilha da tua opinião, assim como nós. (penso que nunca o comentei aquando dos meus comentários e só o faço agora por causa do tema do texto que escreves e porque me identifico com ele). Tristemente é muito comum assistirmos às mudanças de atitude das pessoas quando sabem que alguém virá a ser médico, ou já o é. Será que isso faz de mim melhor pessoa? Uma pessoa que deve ser mais bem tratada do que as outras por vir a ser médico ou ser? NÂO!
    Sempre dissemos ao três que deveriam optar por um percurso académico/profissional que gostassem, que lhes desse prazer. Colocámos, sempre, de lado as questões de prestigio, e de algumas profissões darem mais estatuto que outras. Não penso que ninguém se define pela profissão que tem mas sim pelos valores que comporta e transmite, pelo respeito pelos outros e entre todos.
    Beijinhos.

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    1. Eu notei muito isso na minha família alargada Ana. De repente era 'a que estava a estudar medicina'. Ainda bem que isso se desvaneceu quando disse que queria ser psiquiatra, aí passei a ser só 'a esquisita' :D :D :D Mas o meu irmão levou novamente com a cantiguinha da medicina - era bom aluno, devia 'ir para medicina como a mana' (talvez para salvar a honra da família, porque estava mais do que visto que não era comigo que a malta se ia safar e podia sair dali um médico a sério, como um neurocirurgião!) :D

      Neste aspecto acho que a postura da família que nos interessa mesmo é muito importante. Os meus pais sempre me incitaram a ir para o que eu quisesse e sempre me abriram todas as portas nesse sentido. A minha mãe costumava dizer que a educação e as viagens eram as únicas heranças que me ia deixar :)

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    2. Pior era se escolhesses MGF e aí eras a que vai ser médica da caixa e só serve para passar receitas!!!

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    3. A dada altura pensei em ir para MGF e cheguei a ouvir 'ah sim, e depois se mudares de ideias passado uns anos podes sempre ir para uma especialidade a sério' :O Ao que respondi 'porquê, MGF é uma especialidade de chocolate?' :P

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  8. Depois de ler os comentários acima descritos, é com imensa alegria e orgulho que digo que conheço algumas "Joanas", todas elas de uma simplicidade e humildade impressionantes e contagiantes, onde colocam sempre os outros em primeiro lugar e ouvem atenciosamente todas as pessoas, desde o jornaleiro, a empregada doméstica, o conhecido velhinho, enfim, ouvem e dão os melhores conselhos, prontificam-se para ajudar. É destas pessoas que fazem falta à nossa sociedade. Será que a crise de valores que se instalou está a passar? Espero bem que sim.
    Parabéns aos três e muitas felicidades.
    Maria

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    1. Eu gosto de pensar que sim Maria. Mas há quem diga que sou uma inocente ;) Lá está, mais vale ser uma inocente feliz :)

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  9. Parabéns por essa postura! Deve ser a única médica que conheço (embora apenas no blog) que pensa dessa forma. Às vezes, o que ouço parece saído de uma novela mexicana. Também tento combater o Sistema, embora sem grande sucesso e, honestamente, dá-me náuseas quando as pessoas mudam o seu trato comigo quando percebem o que faço (não sou médica). Bjs e uma ótima semana!

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    1. Sim, eu sei que não somos os únicos tratados de forma diferente. Acho mesmo que não faz sentido nenhum, enfim. Tens de conhecer uns médicos mais simpáticos :)

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  10. Tenho mãe e pai médicos e confirmo: as pessoas tratam-nos de forma diferente. E eu que sou uma pessoa que só gosta de passar despercebida tive de aturar 12 anos disso numa escola onde para tudo era a filha dos senhores doutores. Pior, isso fazia com que os outros achassem que eu tinha mania! Olha que uma vez uma colega minha, nova na turma, veio falar comigo e disse "eu achava que eras um bocado queque mas és uma miúda fixe"! E antes de estar na minha turma nunca tinha falado comigo! Também foi grande "escândalo" não ter ido para medicina porque não só tinha notas como, lá está, tinha os pais médicos (tópico onde eles nunca se meteram! ). E, a cereja em cima do bolo, quando conheci um familiar afastado do meu ex e ele me perguntou o que faziam os meus pais ainda ouço "ah entao é um bom partido". A sério? E se eu fosse uma pessoa péssima? Enfim. Mas reconheço que ser filho de médicos é fixe pelo menos por não ter de ir ao hospital ahahah.
    Beijinhos, acho que vocês vão ser excelentes pais!

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    1. Também tenho alguns colegas com pais médicos (ou com um dos pais médicos) e eles sempre se queixaram do mesmo. A minha melhor amiga do secundário chegou a chatear-se com a mãe de outra amiga nossa uma vez, quando ela lhe perguntou algo do género 'e então a menina vai ser doutora como a mãezinha?' e levou com um 'não, eu quero ser engenheira química e trabalhar numa ETAR'. A mãe da nossa amiga ficou mesmo visivelmente triste, e ainda comentou 'oh, que pena' (só faltou dizer 'realmente, que desperdício'). Na altura ainda nos rimos disto, mas sinceramente agora acho só triste.

      Acho que há algumas vantagens em ser filho de médicos. Não tens medo de médicos, não precisas de ir a tantas consultas... De resto, vai dar ao mesmo :)

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    2. Exacto, nunca percebi essa história das "dinastias". Até porque se eu for engenheira química aposto que ninguém vai perguntar aos meus filhos se querem ser engenheiros químicos como eu... Era uma coisa que me irritava bastante na escola, quando andava a escolher o curso! E ouvi várias vezes a frase "ah, que desperdício", o que me levou a ser ainda mais do contra (mau feitio!) - hoje sou engenheira :D

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    3. É uma coisa um bocadinho arcaica, como se fosse o negócio da família :) Nada contra, tenho colegas médicos com pais médicos porque optaram dessa forma e nós até fazemos piadas sobre isso (temos um colega que em casa só o cão é que não é médico!) :D

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  11. Joana,

    Cada vez te admiro mais :) parabéns por essa postura e por essa atitude.
    Também quero muito educar os meus filhos dessa forma, para que respeitem tudo e todos e percebam que somos todos iguais nas nossas diferenças, que todos somos necessários à sociedade e todos temos os mesmos direitos.
    Não sei se sabes, mas eu sou psicóloga e tive uma amiga que, quando entrou para psicologia, me disse, estava eu no terceiro ou quarto ano do curso: 'psicologia é muito fácil para mim, vou mas é para medicina'. Confesso que, na altura, não foi muito agradável ouvir aquilo. De facto, o curso de psicologia não é difícil, mas não foi a melhor afirmação para se fazer. Ela acabou mesmo por ir para medicina, mas muito mais pelo estatuto e pelo dinheiro do que pela profissão.
    Eu descobri há pouco tempo que gostava de ter ido para medicina, mas não pelo estatuto ou o que quer que seja e sim pela profissão em si. Mas agora já é um bocadinho tarde.

    Um beijinho,
    Teresa

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    1. Bem, há muitas razões para entrar em medicina, e o desafio é uma delas ;) Se calhar a tua amiga é uma espécie de Dr. House nacional, quem sabe :D Pela minha experiência, às vezes as pessoas 'defendem-se' com esse tipo de afirmações para esconder o quanto realmente querem uma coisa (pode ter sido o caso da tua amiga, ou ela podia simplesmente estar a ser douchebag) ;)

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    2. Eheheh, quem sabe se ela é mesmo uma Dra. House no feminino e portuguesa. De facto está nos cuidados intensivos e acho que acabou por encontrar a vocação dela :) e nós somos muito amigas mas aquela frase, na altura, marcou-me embora saiba que ela não a disse por mal. E, de facto, o curso de psicologia é fácil.

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    3. Aqui está mais uma pessoa que gosta de estigmatizar as coisas. O curso de psicologia é fácil para si provavelmente como engenharia é para mim. Porque temos vocação/gostamos/sabemos.
      Eu vejo a minha irmã a estudar neuropsicologia (mestrado) e estudou psicologia na licenciatura. Sei bem que além de conhecer a biologia, o funcionamento fisiológico e além disso perceber a influência da medicação e das manifestações comportamentais, o funcionamento do cérebro, etc.

      Para ela aquilo é fácil, para mim é dificil mas eu não diria que psicologia é um curso fácil da mesma forma que ninguém diz que engenharia é fácil.

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    4. Anónima,

      Eu acho que, infelizmente, não leu os meus comentários todos. Eu própria me queixei de que não gostei, quando a minha amiga me disse que psicologia era muito fácil para ela. Eu admiro e tenho a mesma atitude do que a Joana em relação às profissões. Eu acho, e referi-o, que somos todos iguais nas nossas diferenças, que todos somos necessários à sociedade e que todos temos os mesmos direitos. Por isso, não, eu NÃO gosto nada, mas mesmo NADA, de estigmatizar as coisas. O que eu disse foi que, de facto, o curso de psicologia é fácil. O curso. E é. Bem mais fácil do que um curso de engenharia ou matemática. Mas claro que, para quem não tem qualquer interesse não é fácil, porque é entediante. Mas ser psicólogo já não é fácil, nem desprestigiante, tal como não é ou não devia ser mais prestigiante ser médico nem menos prestigiante ser empregado de limpeza.
      Concordamos as duas em tudo, mas como leu mal o meu comentário não me percebeu.

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  12. Muito bem, Joana!
    Tenho cá em casa um estudante de doutoramente que também se recusa a ter um smartphone! :D E não é pelos outros terem que ele vai ter também!

    Também há questão do sr. arquitecto e da sr. engenheira. Trabalhei num gabinete, em que o chefe tinha pouco mais de 30 anos e obrigava a secretária a chama-lo por sr. arquitecto (nome), bem como aos seus colaboradores. E como é que ele a chamava?! Pelo primeiro nome, na 2ª pessoa do singular.
    É claro que a secretária quando se dirigia a todos (sem a presença do chefe) omitia muitas vezes o sr/srª. A mim, tratava-me por engenheira (nome) e eu insitia constantemente com ela ''por favor, não me trates por você nem por engenheira, pois também te trato por tu'' (mas por força do hábito, foi-se mantendo este tratamento). A senhora tem cerca de mais 15 anos do que eu, o que tornava tudo muito estranho!

    Temos muito que mudar, e estas no bom caminho! Parabenizo-te por isso :)
    Beijinhos

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    1. Eu tenho um smartphone mas não tenho um iphone e às vezes as pessoas perguntam-me porquê. Como se fôssemos todos obrigados a dar valor ao mesmo ;) Eu por mim toda a gente me trata por tu ou por você, mas reconheço que há quem dê valor a essas coisas. Um bocadinho arcaico, não é? :)

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  13. Muitos parabéns pela tua clareza e bom senso!

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  14. Olá Joana. Acho bem que tratemos e sejamos tratados todos por igual... Sou médica, 6 anos mais velha que tu, não moro em frente à praia, não viajo tanto como queria, não estive recentemente em NY, tenho um mini apartamento, mas gosto de ter a minha TV e o meu smartphone e se me esforço por ganhar dinheiro, acho que posso gasta-lo naquilo que quero... Se quero ter uma Michael Kors e posso compra-la porque ganhei o dinheiro com a minha profissao digna isso não faz de mim má pessoa... Ter uma vida espartana pode ser uma opção tua, mas pensa que o preconceito não tem apenas uma via...

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    1. Vai ler novamente o que escrevi:

      'somos talvez a antítese de aquilo que as pessoas normalmente associam aos 'paizinhos médicos' (correspondendo isso à verdade, ou não).'

      É o que normalmente as pessoas ASSOCIAM aos paizinhos médicos, correspondendo isso à verdade OU NÃO.

      Em lado nenhum do meu texto critico o que as pessoas fazem com o seu dinheiro. Aliás, nem sequer critico os médicos. Critico sim que as pessoas ACHEM que ser médico IMPLICA determinadas coisas, quando isso não é verdade. Nunca me passaria pela cabeça criticar o que as pessoas gastam, quando eu própria sou constantemente criticada por gastar tanto dinheiro a viajar em comentários que frequentemente não chegam a ver a luz do dia.

      Enfim.

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  15. Ja agora não achas demasiado mainstream ter um blog?!?!

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    1. Mas já que aqui estamos espero que esse desabafo tenha contribuído para melhorar um bocadinho o seu dia! Afinal, até em casa sou um bocadinho psiquiatra :)

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  16. Olá Joana!
    Antes de mais muitooooos parabéns pelo pequenote! De certeza que vem cheiiiiinho de saúde!
    Eu sou arquitecta, o meu pai é arquitecto e ambos detestamos que nos chamem por Sra. e Sr. arquitecta/o, porém há imensas pessoas, fora dos nossos locais de trabalho e em situações que nada estão ligadas com isso, que nos chamam assim. Parece que dá mais estatuto, mas eu fico super envergonhada, pois acho que não há mesmo essa necessidade. Durante a escola nunca tive esse problema entre amigos, mas na faculdade nunca disse que o meu pai era arquitecto a nenhum professor... Talvez por não querer ser comparada com ele, nem sei bem! :P
    Felizmente conheço diversos médicos como tu, que não gostam de ser chamados por Dr., mas infelizmente conheço alguns snobs que não querem ser tratados de outra maneira... :S
    Beijinho grande, Catarina

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    1. Muito obrigada Catarina :D Eu também não gosto. Não é porque me sinto desconfortável, é mesmo porque acho completamente desnecessário :) Acho que há de tudo em todo o lado, as coisas são assim mesmo :)

      Beijinhos :)

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  17. Adorei este teu post Joana,....
    Há pessoas que dão muito valor aos títulos e exigem o mesmo,.....afinal de contas somos todos iguais e quando morremos vamos todo parar ao mesmo sítio,.....
    Beijinhos,
    Espero por ti em:
    http://strawberrycandymoreira.blogspot.pt/
    www.facebook.com/omeurefugioculinario

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    1. Quem sabe, se calhar vamos para sítios diferentes consoante a escolaridade! :P

      Beijinhos Mary :)

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  18. Infelizmente, os títulos tal como a conta bancária ainda contam muito na nossa sociedade. Vivemos demasiado de aparências quando deveríamos apostar em educação e valores.
    Tenho muitas amigas que foram condicionadas na sua escolha ao ensino superior, porque os pais, engenheiros ou gestores, consideravam uns cursos melhores que os outros. E não em questões de empregabilidade, mas sim de estatuto.
    Por isso, querida Joana, congratulo-te por este post e pela sensibilidade humana que demonstras. Certamente, tu e o Pedro serão uns pais "do caraças"! =)

    Beijinhos!

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    1. Hoje em dia já é tão difícil ter de escolher (um bocadinho) com base na empregabilidade, se ainda vamos obrigar os miúdos a ter mais variáveis à mistura... Enfim, é complicado :)

      Obrigada :)

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  19. Ora aqui está um post fantástico e muito, mesmo muito humilde!
    Os meus pais sempre trabalharam: ele chefe num armazém, ela empregada de escritório. E eu, por vezes um pouco tristemente, escrevia, no inicio do ano escolar, em cada disciplina, as profissões. Porquê tristemente? Porque quase todas as mães das minhas colegas eram domésticas e estavam todo o dia em casa... e a minha não! Demorei muito a perceber que isso era uma coisa boa!
    No entanto, apesar da profissão humilde dos meus pais e dos pais de todos os meus colegas (nenhum deles era licenciado), o meu pai tinha um hobby que lhe dava muito dinheiro e fazia com que fosse conhecido aqui na zona. E eu passava a ser a filha do Sr X. ODIAVA! ^^Isso fez com que gostasse sempre menos do meu pai, também pelo facto de eu ter de me "comportar" senão o que é que as pessoas iriam dizer... sim, vivia acima das possibilidades de todos os meus amigos, e nem sempre gostava. Sentia alguma vergonha disso e omitia muitas vezes prendas que os meus pais me davam, porque podiam.
    Até que cheguei à faculdade: e eu era das poucas que não era filha do Sr Dr ou do Sr Eng!!! E foi dificil: não usava roupas de marca, não tinha carro, não frequentava certos sítios. Mas continuei a ser eu mesma!
    Passados muitos anos, o Sr X, meu pai, quis continuar a controlar toda a minha vida: não podia escolher o pequeno apartamento para arrendar com o meu marido porque "Vão dizer que não tens dinheiro!", comprei um que não lhe agradou porque "podias ter comprado outro melhor", deixei de exercer a minha profissão "olha a vergonha para a família estares num supermercado". Durante anos, oidei toda a minha vida em silêncio: o viver não por ser quem era / sou mas pelo meu progenitor.
    Hoje, que o erradiquei da minha vida, sou mais feliz e vivo sendo a filha da minha mãe, empregada de escritório sem manias, e sou "feliz" como desempregada. Não, não gosto de estar desempregada, mas NUNCA irei usar o nome do meu progenitor para me "encaixar" onde quer que seja.
    Digo muitas vezes, e sem estar a brincar, que quem tem vergonha da filha enquanto é "novo", não é quando necessitar de ajuda que vai perder a vergonha. Que seja feliz num lar chique, com o seu dinheiro, e sozinho, enquanto eu serei feliz com a minha família nuclear com pouco dinheiro!
    Admiro-a muito pela simplicidade. Até porque há muitos médicos que se esquecem que todos precisamos uns dos outros: nós precisamos dos médicos, mas os médicos precisam das profissões "menores" quando o carro avaria, quando precisamd e obras lá em casa, quando vão ao supermercado. Cada qual na sua especialidade: não podemos ser todos médicos nem podemos ser todos serralheiros, mas podemos todos respeitar-nos com as condições que a vida nos proporcionou!
    Bem-haja pelo testemunho!
    Catarina

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    1. Olá Catarina!

      Muito obrigada pelo seu testemunho. Eu também ficava triste quando as minhas amigas da primária iam para casa às três ou quatro porque as mães delas estavam em casa, quando eu tinha de esperar até às sete ou oito. Era frequentemente a última a vir embora porque os meus pais trabalhavam imenso. Curiosamente, aproveitava para brincar e divertir-me, e hoje percebo que os meus pais se sentiam muito mais culpados e tristes do que eu.

      Às vezes pode parecer difícil compreender as motivações dos outros, mas acho que normalmente os pais agem de acordo com o que acham ser o melhor para os filhos. Mesmo que não o seja, que eles estejam errados e que os filhos não compreendam isso. Há determinadas crenças e prioridades que eles imaginam que os filhos vão seguir, mas há que respeitar o espaço e a autonomia de cada um (principalmente se estamos a falar de pessoas já adultas!) :)

      Um beijinho e muitas felicidades :)

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  20. Encontrei este blog por causa de umas fantásticas bolachinhas de canela. Depois descobri este post fantástico e deixei de me sentir a última da extraterrestres. :)
    Excelente texto! Sinto-me mais esperançada na humanidade ao perceber que crianças vão ser educadas por pessoas que dão valor às coisas certas (entenda-se as pessoas e o seu carácter por oposição à sua profissão).

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    1. Há uns dias li alguém a comentar (em relação aos ataques terroristas) que o mal não está a ganhar, tem é uma melhor campanha de marketing. E é verdade: há muita muita gente boa no mundo :D

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  21. Se todos pensassem como tu o mundo era um lugar melhor...especialmente este nosso país que vamos ser sinceros ainda vive de muitos "títulos" e "cunhas" associadas a esses títulos! Precisamos e temos o dever de ser pais de uma geração de mente mais "limpa" e livre de preconceitos! Não tenho filhos (ainda :)) mas quando e se os tiver quero transmitir-lhes isso mesmo! Beijinho e tudo de bom nesta nova "aventura"! :)

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  22. Eu não me lembro de conhecer ninguém com pais médicos. Que estranho, agora que penso nisso :) também é verdade que nunca liguei muito a isso, não costumo perguntar (:P) e não interessava muito quando a amizade era jogar às apanhadinhas :) nunca notei muito tratamentos diferenciais... Mais uma vez, não prestar atenção a isso ajuda. Embora nalguns casos seja claro. Os meus pais são os dois professores e, não sendo atualmente a profissão mais socialmente prestigiada, também costuma (sobretudo costumava) causar alguma impressão - mais quando andava numa escola pequena em que a maioria dos pais não tinha formação superior e muitas mães não trabalhavam. Então sendo os dois médicos... Ui, imagino! E acaba por influenciar as crianças. Embora ache que na maioria dos casos nessa fase preferem ter os pais em casa mais tempo do que a trabalhar mais e ganhar dinheiro para presentes e etc. - não que a escolha seja entre estas.
    Mas a distinção não tem necessariamente de denegrir outras profissões, eu até percebo como 'muito bem, os dois médicos', sobretudo vindo de um profissional de saúde também, possa não ser elitista :) até porque muita gente acha piada a que tenham os 2 a mesma profissão, por muito que faça até bastante sentido :P
    Não sabia que não tinham TV! Que estranho :P hoje em dia é quase mobilía essencial!
    Eu não consigo imaginar tratar por você os meus pais, mas é muuito uma questão de educação e cultura, embora seja algumas vezes uma questão de 'armanço' também :)
    A profissão acaba por definir um bocadinho aquilo que cada um é, eu acho :)
    Acho que realmente a maioria vê os médicos como os bem-sucedidos, desde a entrada da universidade, por corresponder ao curso com média mais alta... Cataloga-se muito conforme notas, curso, trabalho, salário. Por classes :P Desprezando ou admirando as inferiores e as superiores só por se ser (de acordo com os critérios) melhor ou pior. Tem mérito entrar e fazer o curso na mesma, assim como o têm outros, também não é preciso 'pedir-se desculpa por se ser Dr.'. Só que, claro, com as concepções cada coisa tem o significado ampliado. De certa forma acho que ajuda ser uma questão de saúde, os curandeiros têm sempre muito respeito :) não só, claro. Há sem dúvida diferenças no tratamento consoante as profissões, é inevitável, evitável é mudar o que se 'é' de acordo com isso :) mesmo assim podes ter orgulho em ser médica, sem desvalorizar outros trabalhos! :D
    Acho que tens uma postura muito razoável! E gostei de ler o texto, assim como de certeza (notando-se) muitas outras pessoas :)

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    1. Acho que há situações em que se justifica. Ainda ontem na farmácia disse que era médica, depois da farmacêutica me ter dito que tendo em conta que estou grávida devia ter indicação médica para tomar um determinado medicamento. Mas regra geral de facto o tema não surge à baila :)

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  23. Que bom ter regressado ao seu blogue! Este post é lindo! O que eu me ri com as "pinguinhas de xixi".

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    1. É uma expressão que eu uso imensas vezes com os meus amigos :D

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  24. Eu que estava à procura de receitas fit, vi o seu blog (não a trato por "você" por ser médica, atenção :p ) e achei-o muito interessante. Bem, eu tive um colega (ou mais...) que tinha ambos os pais professores lá na escola, e sim, notava-se que tinha tratamento diferente...Tive um amigo que tem o pai médico, e o rapaz é super porreiro, nada de mania...Tenho também uma amiga que queria ir para Medicina (ainda bem que não tinha média, honestamente) por causa do dinheiro. Tá, pronto, o dinheiro é bom, mas bons profissionais de saúde também, e isso vê-se pouco. Por acaso não tenho problemas em falar com médicos, são pessoas normais. Eu estudo Direito, segundo ano, e às vezes o meu pai diz "não sei quê,Doutora", diz isso muita vez, e enerva-me tanto que eu até me passo, não sou médica ou doutorada, e mesmo se fosse, qual seria o sentido de me tratarem assim em família. A minha cidade de estudante é uma cidade de doutores. Cá eu, doutores são só os professores, médicos e doutorados. :p

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